Em busca de uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2024, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer reverter a tendência de alternância de poder que tem marcado as democracias americanas nas últimas duas décadas.
Destaques:
- Tendência de alternância em 65% das últimas 17 eleições democráticas no continente
- Lula tenta impedir novo turno de poder à direita
- Próximas eleições nos EUA e México podem confirmar ou romper o padrão
Alternância de poder como padrão recente
Nos últimos 17 pleitos presidenciais nas Américas, apenas 6 (35%) resultaram em reeleição ou sucessão do partido governista. Em 11 (65%) houve mudança de incumbente, incluindo casos como Argentina, Estados Unidos, Uruguai, Chile e Colômbia.
Quando a reeleição é permitida, a tendência persiste: em sete disputas, apenas três (43%) mantiveram o incumbente – República Dominicana, Equador e Canadá – enquanto quatro (57%) viraram a maré, entre eles o Brasil.
Análise acadêmica da guinada à direita
Amâncio Jorge de Oliveira, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP, aponta duas camadas de mudança: “Um é de mudança, são ventos de mudança, e outros de mudança na direção da direita.” Ele destaca ainda a influência dos Estados Unidos na região.
"Quando você combina ajuste fiscal com retirada de direitos, você tem uma crise de legitimidade e de sustentação governamental", argumentou.
O professor relaciona a queda de popularidade de incumbentes a crises fiscais. Cita a Argentina como exemplo de desequilíbrio fiscal grave, que favorece a ascensão de governos de direita que buscam controle fiscal e redução de direitos trabalhistas.
Redes sociais e volatilidade da opinião pública
Segundo Amâncio, a internet acelera a volatilidade da opinião popular: “O impacto é mais rápido. Isso é um fenômeno de massa… O efeito da internet potencializa esses deslocamentos bruscos.”
"O mesmo efeito que leva esse governante a ser eleito também leva a perder credibilidade, porque você propaga muito mais rápido a informação… O que gera também um problema de estabilidade do sistema partidário", pontuou.
Cenário eleitoral nos países da América
- Brasil 2022: Lula venceu com 50,90% (60,3 mi) contra 49,10% (58,2 mi) de Jair Bolsonaro, primeiro presidente a não buscar reeleição desde 1998.
- Paraguai 2022: Santiago Peña (Partido Colorado) 42,7% derrotou Efraín Alegre (27,5%).
- Guatemala 2023: Bernardo Arévalo (Movimento Semilla) 60,9% sobre Sandra Torres 39,1%.
- Argentina 2023: Javier Milei (La Libertad Avanza) 55,7% contra Sergio Massa 44,3%.
- Panamá 2024: José Raúl Mulino 34,3% vence em sistema de turno único.
- República Dominicana 2024: Luis Abinader 57,4% reeleito no primeiro turno.
- México 2024: Claudia Sheinbaum 59,8% vence, primeira mulher presidente.
- Estados Unidos 2024: Donald Trump 49,8% popular, 312 votos do Colégio Eleitoral, retorna à Casa Branca.
- Uruguai 2024: Yamandú Orsi 49,77% supera Álvaro Delgado 45,94%.
- Equador 2025: Daniel Noboa 55,6% garante mandato completo.
- Canadá 2025: Partido Liberal obtém 169 de 343 cadeiras, mantém governo sem maioria absoluta.
A combinação de crises fiscais, baixa aprovação de incumbentes – como Donald Trump (≈30% aprovação) e Javier Milei (38% aprovação) – e a rapidez da comunicação digital cria um ambiente propício à alternância de poder, desafio que Lula pretende enfrentar nas próximas disputas eleitorais.